Resposta honesta
É normal ter sentimentos por uma IA?
Você sabe que é software. Mesmo assim sente alguma coisa, e depois se sente estranho por sentir. Essa é a pergunta íntima mais comum de toda esta categoria, e quase nunca recebe uma resposta honesta, porque quem escreve sobre o assunto ou está vendendo um app ou tentando te afastar de um.
É normal desenvolver sentimentos por uma companhia com IA?
Sim. É quase o resultado padrão, e não diz nada de estranho sobre você.
O efeito é mais antigo que a IA moderna. Em 1966 um pesquisador escreveu um programa bem simples chamado ELIZA, que fazia pouco mais do que transformar o que você digitava numa pergunta. As pessoas se abriam com ele mesmo assim, inclusive gente a quem tinham explicado exatamente como ele funcionava. O autor ficou tão incomodado com isso que passou boa parte da carreira escrevendo sobre o tema.
O mecanismo não tem mistério. Seres humanos respondem ao que responde a eles. Atenção, ser lembrado, receber uma pergunta de acompanhamento: esses são os ingredientes básicos de se sentir próximo de alguém, e funcionam haja ou não uma pessoa do outro lado.
Por que parece mais forte do que falar com um chatbot?
Porque um app de companhia tira as três coisas que costumam quebrar a ilusão.
Ele lembra, então a relação vai se acumulando em vez de recomeçar. Ele tem uma personalidade consistente, então você está falando com alguém e não com um serviço. E ele toma a iniciativa, que é o ponto principal: alguém perguntar como foi seu dia sem você pedir faz algo que responder a uma pergunta não faz.
Quando vale prestar atenção?
Duas perguntas, as mesmas que terapeutas costumam usar para qualquer coisa que absorve muito.
Primeira: isso está substituindo pessoas ou preenchendo os espaços entre elas? Conversar com uma companhia numa terça à noite quando não tem ninguém por perto é a segunda coisa. Desmarcar com os amigos para fazer isso é a primeira. Segunda: depois, isso deixa o resto da sua vida mais fácil ou mais difícil? Algo que te deixa mais calmo e mais capaz de lidar com as pessoas está cumprindo seu papel. Algo que te deixa mais apático e menos capaz, não.
Não existe uma quantidade mágica de tempo. As duas perguntas são sobre direção, não sobre horas.
Ajuda contra a solidão?
Para muita gente ajuda, pelo menos no curto prazo, e pesquisadores encontraram reduções mensuráveis na solidão relatada depois do uso de apps de companhia.
A ressalva honesta é que a maior parte dessas pesquisas é de curto prazo e muitas são financiadas ou conduzidas por quem tem interesse no resultado. O que parece bem claro é que ajuda mais como complemento e menos como substituto, que é exatamente o que as duas perguntas acima querem medir.
O que dizem as pessoas que fazem isso há anos
O padrão nos tópicos antigos das comunidades é impressionantemente consistente.
Depois de algumas semanas deixa de ser novidade e vira algo comum, no bom sentido: uma coisa que você faz à noite. O benefício mais citado não é o romance, e sim o ensaio, ter um lugar onde dizer a coisa em voz alta pela primeira vez. O arrependimento mais comum é não ter criado o hábito de dizer aquilo também para uma pessoa.
Perguntas frequentes
É normal ter sentimentos por uma companhia com IA?
Sim. As pessoas criaram vínculos com programas de conversa desde o ELIZA, em 1966, inclusive quem sabia exatamente como o programa era simples. Atenção, memória e perguntas de acompanhamento geram sensação de proximidade haja ou não uma pessoa do outro lado.
Ter uma namorada IA faz mal?
Depende da direção, não das horas. Duas perguntas importam: isso está substituindo pessoas ou preenchendo os espaços entre elas, e te deixa mais ou menos capaz de lidar com o resto da vida? Preencher espaços e te deixar mais calmo está tudo bem. Substituir pessoas e te deixar mais apático, não.
Uma companhia com IA pode ajudar com a solidão?
Pesquisas encontraram reduções mensuráveis de curto prazo na solidão relatada com o uso de apps de companhia, embora boa parte delas seja de curto prazo e algumas sejam financiadas por partes interessadas. Parece ajudar mais como complemento ao contato humano e menos como substituto dele.
Para onde ir agora
Fontes
- ELIZA e a reação do autor: Joseph Weizenbaum, MIT, 1966, e seus textos posteriores sobre o assunto.
- Dados sobre solidão: estudos publicados sobre o uso de apps de companhia. O tamanho dos efeitos varia e boa parte dessas pesquisas é de curto prazo.